Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Para lá do luar

     Atravesso a morte, um campo de diurno verde povoado, quando a noite é rainha, de visões horripilantes plenas de nados mortos. Não corro, sei que seria inútil qualquer tentativa de evitar pisar os ossos desprovidos de carne que estão semeados pelo chão. Percorro-me, em tentativas aflitivas de esconder à alma aquilo que a turva a uma suprema consternação. Adio-me por entre a bruma fétida e o bafio bolorento dos cadáveres, que encontro mais à frente: informes desprovidos de ossos e carentes de estrutura. Meros retalhos de carne perecida às garras do tempo. Tempo que invento, que recordo e renovo a cada passo. Cronos é generoso na sua dádiva, cortês na sua maldição…

     Uma estranha formação no céu, uma espécie de arco-íris feito de tons de cinzento e de um negro filho do breu, prenuncia a luz. Precipitam-se restos de noite, sob a forma de um condensado frio que se entranha nas ossadas e nos recantos da pele cobrindo-as de um verde que esmorece até se tornar um preto de pleno carácter. A luz existe, a noite persiste para lá do luar.


publicado por Buraco Negro às 23:12
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Quando a Lua está prenha de luar.

.Que esta noite guarde os nosso sonhos

Para lá do sempre

Em seu ventre situado entre a luz das estrelas e o luar

 

Que o teu corpo guarde o meu

Pelas noites

Por todas as que nunca te poderei ter

 

Que a tua voz me embale antes de dormires

Que sonhes pelas noites as nossas noites impossíveis

 

Não chores as lágrimas que não chorei

Sorri apenas abraçada naqueles segundos

Deixa que o orvalho te humedeça a pele

Ao mesmo tempo que corta a minha

 

Não me deixes dar instruções de como sofreres

Sofre à tua maneira

Eu sofro à minha

Unidos numa espécie de morte

A florir dor

Sob a bênção do luar

 

Naquele lugar

Ecoam melodias de embalar

Dança a solidão tão cheia de ti

Às vezes quase te consigo tocar

Quando a Lua está prenha de luar.

música: "D'ont Let Go" dos The Rasmus

publicado por Buraco Negro às 00:01
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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Intangível

.Olho o céu
Este céu nocturno
Irrepetível
Intangível num breve olhar

Olho-o olhando para mim

É bela esta noite
Bela como amanhã não será
Bela na sua morte anunciada

Olho-me na noite
Sem me achar
Sem vontade de me procurar

Sou prisioneiro de um olhar
De uma noite ao luar
Sou a noite que há em mim
Sou a extensão da morte que há em mim
Sou tudo aquilo que esqueci.

publicado por Buraco Negro às 19:31
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