Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Para lá do luar

     Atravesso a morte, um campo de diurno verde povoado, quando a noite é rainha, de visões horripilantes plenas de nados mortos. Não corro, sei que seria inútil qualquer tentativa de evitar pisar os ossos desprovidos de carne que estão semeados pelo chão. Percorro-me, em tentativas aflitivas de esconder à alma aquilo que a turva a uma suprema consternação. Adio-me por entre a bruma fétida e o bafio bolorento dos cadáveres, que encontro mais à frente: informes desprovidos de ossos e carentes de estrutura. Meros retalhos de carne perecida às garras do tempo. Tempo que invento, que recordo e renovo a cada passo. Cronos é generoso na sua dádiva, cortês na sua maldição…

     Uma estranha formação no céu, uma espécie de arco-íris feito de tons de cinzento e de um negro filho do breu, prenuncia a luz. Precipitam-se restos de noite, sob a forma de um condensado frio que se entranha nas ossadas e nos recantos da pele cobrindo-as de um verde que esmorece até se tornar um preto de pleno carácter. A luz existe, a noite persiste para lá do luar.


publicado por Buraco Negro às 23:12
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Adormece as tuas mágoas pela noite

.Adormece as tuas mágoas pela noite

Acorda delicada
Serenada pela Lua
Surpreendida pelas estrelas.

Abriga a dor na noite
Pela noite carpe
As lágrimas que te escorrem do peito
Na forma de sangue
Que
...
Te viajam pela alma
...
Te Roçam a carne


O sangue toca-te os olhos
Transmuta-se em água cristalina
Chove do Outono de teus olhos

Ouve a voz da noite
[A voz na noite]
Abraça-a
Deixa que ela te limpe as lágrimas
Toma-a no teu pedaço de cristal.
música: "She Dies" dos Draconian

publicado por Buraco Negro às 23:22
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Domingo, 27 de Maio de 2007

Fecha os olhos

Dedicado a J R:

.Fecha os olhos

Sob este céu
Ilumina-te no nevoeiro

Dá-me a tua mão
Aperta-a na minha
Somos dois feitos um

Teus lábios:
O azul do céu

Noite arrancada ao dia
Existimos no crepúsculo
No alvorecer.

publicado por Buraco Negro às 17:27
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Sexta-feira, 18 de Maio de 2007

Noite

.Quando a noite cai

Renovam-se meus votos de solidão

 

Às vezes parece-me ouvir tua voz a ecoar

Fragmentada pelo volátil tempo

Não estás

 

Tu:

Quem procuro todas as noites sem encontrar

Quem ouso tocar nos sonhos

 

Memórias de ti

 

Letargo

Bordado com sonhos

Feitos da mesma matéria de tua alma

Feitos do espaço entre o céu e o mar

 

Encontro-te pelos vértices deste céu

Que sorri para mim

Entre luz que é emanada da dança entre a Lua e as estrelas

Brota a mais solene escuridão

Suave desespero

 

Algo me conforta

 

Este vento que me afaga

Que me rasga a pele

Tem o teu cheiro

O teu calor

 

Sou

 

Existo

Para esta noite

Para todas as noites

Onde te encontro sem te encontrar.


publicado por Buraco Negro às 00:30
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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007

Intangível

.Olho o céu
Este céu nocturno
Irrepetível
Intangível num breve olhar

Olho-o olhando para mim

É bela esta noite
Bela como amanhã não será
Bela na sua morte anunciada

Olho-me na noite
Sem me achar
Sem vontade de me procurar

Sou prisioneiro de um olhar
De uma noite ao luar
Sou a noite que há em mim
Sou a extensão da morte que há em mim
Sou tudo aquilo que esqueci.

publicado por Buraco Negro às 19:31
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